
Nunca fui grande simpatizante das tradições académicas, em particular das praxes típicas desta altura do ano. A minha avó ainda me deu o dinheiro para o traje mas foi desviado para uma aparelhagem. Claro que quando acabei a licenciatura não me deu nada. Coerências...
Quanto a serenatas logo percebi que eram boas para os pés. Os cortejos... bem isto é cruel mas os bêbedos sempre despertaram a curiosidade e o humor perverso que há em mim. Ainda existiam umas mainfestações académicas animadas, as greves às aulas e fecho das faculdades como forma de protesto. Para além de serem muito democráticas, eram mesmo muito proveitosas.
No que respeita à praxe, não sendo um adepto, considero-a um fenómeno sociológico bastante interessante e complexo. Quero deixar bem claro que apesar de não concordar com a sua existência, não considero que todos que a pratiquem estejam dominados por um desejo malévolo e avassalador de humilhar os novos estudantes. De um modo geral, as pessoas entusiastas da praxe que conheço, com quem já tive interessantes debates, fazem-no ou fizeram-no visando a integração dos caloiros, em tom brincalhão, de um modo mais ou menos criativo mas sem ultrapassar os limites do bom senso. Por outro lado, por tecer estas palavras não julguem que estou aqui a vingar ou a exorcizar as pesadas praxes sofridas. Fui praxado levemente apenas umas 3 vezes e rapidamente fiquei entediado. A juntar a isto, o facto de ter começado a "ranhosar" com os "Doutores" e de não lhes dar grande confiança, acabou com o interesse. Todavia, ainda tive um "padrinho", um colega cabo verdiano chamado Karl Marx (não era alcunha, era mesmo o seu nome pois vinha de uma família muito politizada). Uma excelente pessoa.
Da observação das praxes constatei:
As actividades eram pouco criativas e entediantes;
Havia caloiros que sentiam uma necessidade extrema de serem praxados e notados. Mostravam-se e rebolavam-se para os "Doutores" como mulher de 30 anos, que não quer ficar para tia, num bar de solteiros. Ó necessidade de aceitação!
Notava-se, de forma evidente, que os praxistas mais ríspidos tinham sofrido bastante no seu ano de caloiro. São facilmente identificáveis pois sabem as regrinhas todas do código da praxe e ficam muito agitados e suados quando trajados, liderando o berreiro e as actividades.
Outros, e só depois de os conhecer melhor tive esta percepção, têm na praxe o auge da sua vida. Parece que naquele momento se libertam de anos de opressão e de gozo. É um escape, sentem-se senhores respeitados e temidos, são finalmente alguém. Se isto for terapêutico ao ponto de evitar que mais tarde peguem em armas e façam reféns num banco, nada a dizer. Porém os "Doutores" também sofrem! No meio da algazarra, as fatiotas extremamente quentes, os sapatos apertados, as dores nos pés, o corpo suado, as raparigas com os calcanhares esfolados ou protegidos com adesivo, os collants rotos com pêlos espetados, a voz rouca...
Saliento que nunca presenciei uma situação de abuso e julgo que a generalidade dos intervenientes estava a divertir-se minimamente. Agora se é um bom divertimento... cada um tem os seus gostos.
Mas lembro-me de ouvir algumas histórias sinistras, como a de um conhecido meu que num dormitório foi acordado a meio da noite, preso, despido e rapado na zona púbica. A outro, puseram-lhe algo na bebida e foi a espumar para o hospital.
É óbvio que são casos minoritários, estando longe de definir o que é a praxe. Ainda assim, penso que a integração dos estudantes podia dispensar as pinturas, as macacadas, as cantigas irritantes e situações potencialmente humilhantes. A haver praxe que seja com criatividade.
Como é a cantiga? RFA? Xiribi não sei das quantas? Quando era um caloiro receptivo a experimentar a praxe, ainda tentava cantar, dizia as primeiras palavras depois limitava-me a abrir a boca... não sabia mais!